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O ultraprocessado chega antes da fome: como o ambiente molda o paladar das crianças

Por Dr. Joary de Pinho — Médico · CRM-SP 41.210 · Lumen Medical Institute · Publicado em 4 de novembro de 2026

Antes de a criança sentir fome, o salgadinho já está na prateleira do caixa, o biscoito recheado já está na lancheira e o refrigerante já está mais barato do que o suco de fruta. O ultraprocessado chega primeiro. E, quando chega primeiro todos os dias, ele vai ensinando ao paladar o que é "gostoso" muito antes de qualquer aula sobre alimentação.

Este artigo explica o que os relatórios mais recentes mostram sobre isso e, principalmente, o que a família pode fazer em casa, sem culpa e sem dieta.

O que o UNICEF mostrou em 2025

Em setembro de 2025, o UNICEF publicou o relatório Feeding Profit ("Alimentando o lucro"), sobre como os ambientes alimentares estão falhando com as crianças. A principal conclusão chamou a atenção do mundo: pela primeira vez, a obesidade passou a magreza entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos. São 9,4% com obesidade contra 9,2% com baixo peso, cerca de 188 milhões de jovens com obesidade. Somando o sobrepeso, 1 em cada 5 crianças e adolescentes no mundo, ou 391 milhões, está acima do peso. (Os números de 2025 são uma projeção do UNICEF a partir das tendências de 2010 a 2022.)

O relatório diz com todas as letras que o ultraprocessado está tomando o lugar de frutas, verduras e proteínas na alimentação das crianças. E mostra o papel da propaganda: numa enquete com 64 mil jovens de 13 a 24 anos, em mais de 170 países, 75% lembravam de ter visto anúncios de bebidas açucaradas, salgadinhos ou fast-food na semana anterior, e 60% disseram que esses anúncios aumentaram a vontade de comer esses produtos.

Não é problema só de país rico

Segundo o UNICEF, a obesidade já supera a magreza em todas as regiões do mundo, com exceção da África Subsaariana e do Sul da Ásia. Isso inclui muitos países de baixa e média renda, onde, até pouco tempo atrás, a maior preocupação era a fome. Em algumas ilhas do Pacífico, o relatório descreve a troca da dieta tradicional por alimentos importados, baratos e cheios de calorias.

Em novembro de 2025, a revista médica The Lancet publicou uma série de artigos sobre ultraprocessados, liderada por pesquisadores da Universidade de São Paulo. A tese central é a mesma: os ultraprocessados estão deslocando os padrões alimentares tradicionais, baseados em comida de verdade e em refeições preparadas, e isso é um motor importante das doenças crônicas ligadas à alimentação.

E no Brasil?

Um estudo publicado em 2023 na Revista de Saúde Pública, com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE (2017-2018), mostrou que os ultraprocessados respondem por 19,7% das calorias consumidas pelos brasileiros com 10 anos ou mais. Entre os adolescentes, a fatia sobe para 26,5%, cerca de 1 em cada 4 calorias. Entre os idosos, fica em 15,1%. Quanto mais jovem, mais ultraprocessado no prato.

Ainda temos uma vantagem: arroz, feijão, legumes e frutas continuam presentes em muitas casas. É essa tradição que vale proteger.

O paladar se forma cedo

A Organização Mundial da Saúde lembra que os hábitos e as preferências alimentares criados na infância e na adolescência costumam continuar na vida adulta. Por isso o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, orienta não oferecer açúcar nem produtos com açúcar e não oferecer ultraprocessados à criança até os 2 anos.

Os ultraprocessados são feitos para agradar logo na primeira mordida: muito doce, muito sal, muita gordura, crocância e aroma calculados. Quando a criança se acostuma com esse padrão, a cenoura, o feijão e a fruta parecem "sem graça". Não é falta de força de vontade da criança. É treino do paladar.

Mudar o ambiente funciona melhor do que culpar

Se o problema fosse só escolha individual, bastaria dar bronca. Mas a criança não escolhe o que a cantina vende, o que aparece no desenho animado nem o preço do salgadinho. Por isso o UNICEF pede aos governos regras para rótulos, propaganda e impostos, e a proibição da venda e da propaganda de ultraprocessados nas escolas. No México, por exemplo, ultraprocessados e bebidas açucaradas chegaram a 40% das calorias diárias das crianças, e o governo proibiu a venda desses produtos nas escolas públicas, o que alcança mais de 34 milhões de crianças.

Em casa vale a mesma lógica. A família não precisa vigiar cada mordida: precisa mudar o que está ao alcance da mão. A regra de ouro do Guia Alimentar para a População Brasileira resume: "Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados."

Dicas práticas para a família

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O mercado decide a semana

O que não entra no carrinho não vira lanche. Faça a lista antes de sair e evite levar a criança com fome ao mercado. Biscoito, salgadinho e refrigerante ficam para ocasiões, não para a despensa.

🍎

Fruta à vista

Deixe frutas lavadas na fruteira e legumes cortados na geladeira, na altura dos olhos da criança. O que está pronto e à vista é o que se come.

🎒

Lancheira de verdade

Fruta, pão com queijo, ovo cozido, pipoca feita em casa, água. Trocar um item de pacote por semana já muda o hábito sem briga.

🥤

Água é a bebida da casa

Refrigerante, suco de caixinha e achocolatado pronto ensinam o paladar a esperar doce. Água na mesa e fruta inteira no lugar do suco.

👩‍🍳

Criança na cozinha

Lavar a verdura, mexer a panela, montar o próprio prato. Quem ajuda a preparar tem mais vontade de provar. Pode levar várias tentativas até a criança aceitar um alimento novo; insista com calma.

📺

Menos tela, menos anúncio

Refeição sem celular e sem TV. Converse com a criança sobre a propaganda: quem quer vender, o que a embalagem promete e o que tem de verdade dentro.

Quando procurar avaliação

Vale procurar um médico quando o peso da criança sobe mais rápido que a altura, quando ela recusa quase todos os alimentos que não vêm de pacote, quando há cansaço, ronco ou manchas escuras no pescoço, ou quando há diabetes, pressão alta ou colesterol alto na família. A avaliação olha para a história da casa toda, o crescimento, o sono e, quando indicado, os exames.

Converse com um médico

Mudar o ambiente é um trabalho de família, e não precisa ser feito sozinho. Uma consulta com tempo para ouvir a rotina da casa ajuda a escolher por onde começar.

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Fontes

Conteúdo educativo, não substitui a consulta. Este artigo não substitui a avaliação médica individualizada da criança ou do adolescente. Não inicie dietas restritivas nem use remédios para emagrecer sem orientação médica.