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Ansiedade e depressão no trabalho: 546 mil afastamentos em 2025 e o que a empresa pode fazer

Por Dr. Joary de Pinho — Médico · CRM-SP 41.210 · Lumen Medical Institute · Publicado em 5 de novembro de 2026

Quem trabalha conhece a cena: a pessoa vai levando o cansaço, a insônia, o aperto no peito e a irritação por semanas ou meses, até o dia em que não consegue mais. Nessa hora, o problema já não é só dela. É da equipe que fica com o trabalho a mais, do gestor que perde alguém experiente e da empresa que, muitas vezes, só percebe quando chega o atestado.

Os números oficiais de 2025 mostram que esse dia está chegando para cada vez mais brasileiros. E mostram também por onde começar a mudar.

O que os números da Previdência mostram

Em janeiro de 2026, o Ministério da Previdência Social divulgou que, em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária (os afastamentos pelo INSS) por transtornos mentais e comportamentais. Em 2024, tinham sido 472.328. É um aumento de 15,66% em um ano.

As duas causas que mais afastaram foram as mesmas nos dois anos:

Somando ansiedade e depressão, são cerca de 2 em cada 3 afastamentos por saúde mental. As mulheres receberam 63,46% desses benefícios. Os estados com mais casos foram São Paulo (149.375), Minas Gerais (83.321) e Rio Grande do Sul (46.738).

E esse número ainda mostra só uma parte do problema: o benefício do INSS é para quem fica incapaz para o trabalho por mais de 15 dias seguidos. Os afastamentos curtos, as faltas e quem trabalha doente não entram nessa conta.

Não é um problema só do Brasil

A Organização Mundial da Saúde estima que 16% dos adultos em idade de trabalhar tinham um transtorno mental em 2023, e que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos todo ano por depressão e ansiedade, com um custo de 1 trilhão de dólares por ano em produtividade perdida.

A OMS recomenda que os empregadores ajam principalmente sobre a organização do trabalho, com medidas como horários mais flexíveis e regras claras contra violência e assédio, e que treinem os gestores para reconhecer o sofrimento na equipe e saber responder a ele.

Agora é também uma regra para as empresas

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, passou a incluir os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) das empresas. A mudança foi aprovada pela Portaria MTE nº 1.419/2024, teve um primeiro ano educativo e entrou em vigor em 26 de maio de 2026. Ou seja: sobrecarga, metas impossíveis, assédio e falta de apoio deixaram de ser "assunto pessoal" e passaram a fazer parte da gestão de segurança e saúde no trabalho.

Onde o check-up e a consulta preventiva entram

Ansiedade e depressão raramente começam de um dia para o outro. Antes do afastamento, costumam aparecer sinais que o próprio colaborador nem sempre liga à saúde mental: sono ruim, cansaço que não passa, dor de cabeça, palpitação, estômago que reclama, mais café, mais álcool, menos paciência. Uma parte desses sinais também pode vir de causas do corpo, como alterações da tireoide, anemia, falta de vitaminas ou apneia do sono, que só aparecem quando alguém investiga.

Uma consulta com tempo para ouvir a história completa, olhar o sono, a rotina, os exames e o histórico da família ajuda a separar uma coisa da outra e a encaminhar mais cedo, antes de virar afastamento. Não substitui o programa de saúde e segurança da empresa, nem o médico do trabalho. Soma a eles.

6 sinais de alerta e o que fazer

😴

Sono que não descansa

Demorar para dormir, acordar de madrugada pensando no trabalho ou acordar já cansado por semanas seguidas merece avaliação.

🔋

Cansaço que não passa

Fim de semana e férias que não recuperam a energia. Vale investigar o corpo (exames) e a mente, as duas coisas juntas.

💓

Corpo em alerta

Palpitação, aperto no peito, falta de ar, dor de estômago ou de cabeça frequentes. Primeiro descartar causas físicas; depois olhar a ansiedade.

☕

Mais café, mais álcool

Precisar de cada vez mais café para funcionar e de álcool ou remédio para "desligar" é um sinal de que o corpo está pagando a conta.

🧩

Esquecimento e irritação

Dificuldade de concentrar, erros que antes não aconteciam, pavio curto com colegas e família. Não é "falta de vontade".

🤝

Falar cedo

Para o colaborador: procurar ajuda no começo. Para a empresa: gestor treinado para ouvir e um caminho fácil para chegar ao médico.

Quando procurar ajuda logo

Procure atendimento quando a tristeza, a ansiedade ou o desânimo durarem mais de duas semanas, atrapalharem o trabalho, o sono ou a vida em casa, ou quando surgirem crises de pânico. Se houver pensamentos de morte ou de se machucar, procure ajuda no mesmo dia: o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188, e o SAMU pelo 192.

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Leia também: Cansaço com exames normais: o que pode estar por trás →

Fontes

Conteúdo educativo, não substitui a consulta. Este artigo não faz diagnóstico nem substitui a avaliação médica individualizada, o médico do trabalho ou o programa de saúde e segurança da empresa. Não comece nem pare remédios para ansiedade, depressão ou sono sem orientação médica. Em crise ou com pensamentos de se machucar, ligue 188 (CVV) ou 192 (SAMU).